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  • 2019.10.18

    Arquitetura – Principal ferramenta de construção da história da humanidade

    Desde o momento em que a humanidade aprendeu a cultivar e criar seu próprio alimento, o homem fincou raízes na terra, deixando de ser nômade para se apropriar do espaço físico, dominá-lo e modifica-lo de acordo com sua necessidade. Isso permitiu o acúmulo de riqueza, divisão de tarefas entre os indivíduos do mesmo grupo e o surgimento da necessidade de viver em coletivo. Sendo assim o homem aprendeu a viver em sociedade, desenvolvendo formas diversas para criar símbolos, cultos, regras, filosofias e lendas, formando uma identidade única e específica que os diferenciasse dos demais grupos, também, autônomos.

    As pequenas tribos do passado tornaram-se grandes e numerosos agrupamentos, resultando em vilarejos e cidades. Nesse momento, a arquitetura passa ter papel fundamental na organização da sociedade, influenciando a arte, política, religião, economia, e até mesmo a geografia, com a criação de canais, desvio de rios e barragens, dotando o homem de capacidades incríveis de intervir na natureza e construir impérios e nações sem precedentes.

    Desde as cidades milenares, hoje em ruínas na Grécia, passando pelo majestoso Egito Antigo e suas abundancias no delta do Rio Nilo, até o inacreditável e duradouro Império Romano, a Arquitetura foi uma ferramenta indispensável para a consolidação dessas civilizações. Mesmo nos dias atuais somos intrigados e inspirados pelos monumentos deixados em diferentes partes do mundo.

    Porém, hoje escolho tratar especificamente de um período longo, cheio de acontecimentos que até hoje influenciam a sociedade ocidental: A Idade Média (do século V ao XV).

    A Idade Média, também chamada de Idade das Trevas, é um exemplo complexo de como, através da arquitetura, o conhecimento, a ciência, a fé e a liberdade foram manipuladas e controladas a serviço de um poder supremo, ambição e corrupção.

    Tudo começa a partir da queda do Império Romano no Ocidente em 486 d.c. após diversas invasões bárbaras e o enfraquecimento da economia e do exército romano. Nesse momento, o caminho fica livre para o surgimento de uma nova figura soberana de poder – A Igreja Católica Apostólica Romana – instituição pertencente ao Cristianismo que foi considerado a religião oficial do Império Romano por Constantino por volta do ano de 313 d.c.

    Arquitetonicamente, a Idade Média pode ser dividida em 2 fases principais: Período Românico e Período Gótico.

    O Período Românico se trata da primeira fase inicial de consolidação da igreja como figura politica normativa. Após o reconhecimento da religião cristã como oficial, palácios, templos, monumentos e terras foram cedidas à instituição pelo poder do Imperador de Roma ao longo dos anos, bem como a garantia do financiamento das atividades da igreja.

    Espaços ditos pagãos dedicados aos Deuses Greco-romanos e construções administrativas e culturais foram apropriados pela Igreja, afim de transformar a simbologia do poder, substituindo a figura do Imperador e do Estado pela soberania do papado.

    Fóruns e Basílicas foram remodelados e transformados em templos cristãos, deixando claro que questões sociais e de justiça passariam, também pelo controle da igreja.

    Os templos românicos tinham como características os elementos e técnicas de construção presentes em grande parte do Império Romano, como a valorização da horizontalidade, paredes grossas e aberturas pequenas em menor quantidade ressaltando o caráter austero da edificação, presença de telhado em duas águas com estrutura em madeira, plantas em formato de cruz e teto em forma de arco perfeito. Além disso, os templos românicos eram idealizados para resistirem a invasões e ataques.

    Esses templos ainda sobrevivem ao tempo com muita elegância. Muitos se tornaram locais de peregrinação devido à sua história de construção ou devido ao santo a qual é dedicado.

    Durante o Período Românico, o Feudalismo era o sistema de organização, onde a terra representava a riqueza e o poder numa sociedade estamental dividida em classes sociais fixas. A Igreja detinha significativas porções da Europa e exercia seu poder econômico através dos meios de produção, controlando, inclusive, nobres e realezas.

    A Igreja se estabelece como sendo o centro do mundo político, econômico, religioso e cultural. Seus templos expressam essa força suprema e onipresente em sua estética rústica, pesada, majestosa, quase sempre ocupando o ponto mais importante das cidades e vilarejos. A igreja passa a ser sinônimo de controle e proteção num mundo perigoso e instável.

    O Período Gótico se desenvolve numa época de enriquecimento e mudanças sociais. O comércio começa a se estabilizar e parte da população rural migra para áreas urbanas, permitindo o aparecimento de uma classe social burguesa influente e rica. A arte e técnicas construtivas se desenvolvem muito além das heranças arquitetônicas do antigo Império Romano. As pinturas, esculturas e artesanatos ganham novas formas de expressão e é possível realizar monumentos únicos e estilizados que representem bem o poder da igreja e o rompimento com o passado.

    Embora a população não tivesse acesso aos meios de conhecimento controlados pela igreja, monastérios e universidades guardavam intermináveis coleções de livros de todas as partes do mundo.

    No período gótico, além do poder sobre a terra, política e religião, a Igreja Católica também é detentora do conhecimento e sua propagação. A sociedade se estabelece debaixo do olhar fixo da Santa Sé. Leis rigorosas mantem a todos num estado de perseguição constante, alianças entre o papado e reis consolidam repressão e exploração, e a alienação da população era completa. Não se poderia alcançar a salvação sem o reconhecimento da igreja. Tudo está submetido a Deus através da observância do Clero.

    Como resultado, os templos cristãos passam a ser mais imperativos e sublimes, a iluminação ganha destaque principal no interior, conferindo um ar transcendental no contraste entre luz e sombra. Não é mais necessário grandes paredes maciças com poucas aberturas, as estruturas passam a exibir um caráter decorativo e reforçado por nervuras alinhadas aos arcos, abóbodas e cúpulas. A edificação recebe valorização no sentido vertical, com cruzes e pináculos apontando para o céu como agulhas indicando o sentido da salvação. Gárgulas, esculturas demoníacas, eram colocadas nas calhas dos telhados, demonstrando que fora da igreja e obediência não há salvação.

    Após dez séculos de dominação cega e poder ilimitado da Igreja, novas vertentes filosóficas começaram a surgir no século XV se contrapondo ao sistema da época. Porém, a arquitetura continua sendo a principal ferramenta de comunicação e propagação do ideal que se pretende impor.

    Muitas vezes, a arquitetura foi usada para finalidades cruéis e egoístas, mas não se pode negar seu poder de dominação, criação, realização e influência. A mensagem contida nos livros, no intelecto dos filósofos, na crença e lendas de um povo, os anseios e contradições da ciência, tudo isso se consolida através da arquitetura.

    Somos seres dependentes do convívio social, somos seres atuantes na cidade, e não existe cidade ou sociedade sem o embasamento técnico, artístico e referencial da arquitetura. Todas as necessidades e ambições, coletivas ou individuais, se apoiam na arquitetura como forma de concretização.

    E pra você, o que mais você acha que auxiliou na construção da nossa história?

    Diego Silveira Pacheco

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